Durante muito tempo, eu achei que a minha dificuldade para me comunicar era falta de capacidade.
Eu tinha repertório, ideias, vontade de ensinar e até sabia exatamente o que queria dizer. Mas, quando precisava organizar uma fala, gravar um vídeo, responder algo de improviso ou me expor diante de outras pessoas, parecia que tudo se embaralhava.
A mente acelerava. As ideias vinham todas ao mesmo tempo. Eu começava por um ponto, lembrava de outro, queria explicar tudo para não ser mal interpretada e, muitas vezes, terminava a fala sentindo que não tinha conseguido expressar nem metade do que eu realmente queria.
Hoje eu entendo que isso também tem relação com o meu TDAH.
E talvez você se identifique com isso.
O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade pode afetar a forma como uma pessoa organiza, seleciona e expressa aquilo que pensa. Isso não quer dizer que ela não tenha boas ideias, muitas vezes, é justamente o contrário.
Pessoas com TDAH costumam ter pensamentos criativos, rápidos, associações profundas e uma percepção muito rica das situações. A dificuldade pode estar em transformar toda essa riqueza interna em uma mensagem clara, linear e compreensível para quem está ouvindo.
Na comunicação e na oratória, isso pode aparecer de várias formas:
Dificuldade para organizar o raciocínio antes ou durante uma fala;
Sensação de “branco”, especialmente em situações de pressão;
Prolixidade: começar uma explicação e ir abrindo muitos caminhos;
Medo de esquecer algo importante e, por isso, tentar falar tudo;
Interromper ou responder antes de a outra pessoa concluir;
Perder o fio da conversa com estímulos externos ou pensamentos internos;
Ter ótimas ideias, mas dificuldade para começar um vídeo, uma apresentação ou uma reunião;
Oscilar entre falar demais e se calar por medo de se confundir;
Autocrítica intensa depois de uma exposição.
Nada disso define a sua inteligência, a sua competência ou o seu potencial de liderança. Mas pode gerar insegurança — principalmente quando a pessoa interpreta essas dificuldades como uma falha pessoal.
Eu tenho TDAH do estilo combinado, ou seja, vivo características tanto de desatenção quanto de hiperatividade e impulsividade. Isso significa que, ao mesmo tempo em que posso me perder em pensamentos, distrações ou detalhes, também posso ter a mente acelerada, muitas ideias surgindo de uma vez e dificuldade para desacelerar antes de falar.
Às vezes, eu sabia profundamente sobre um assunto, mas tinha dificuldade para explicar de uma forma simples. Em outros momentos, eu travava porque queria encontrar a frase perfeita, antecipar todas as dúvidas ou garantir que ninguém entendesse algo errado.
Também conheço bem a sensação de estar falando e perceber que a mente foi para outro lugar. Ou de ter uma ótima ideia e, quando chega a hora de colocá-la em palavras, sentir que ela desapareceu.
Por muito tempo, isso alimentou uma sensação de inadequação: “Por que eu não consigo falar de forma objetiva como as outras pessoas?” “Por que eu me perco tanto?” “Será que vão achar que eu não sei do que estou falando?”
Mas o que eu precisava não era me tornar outra pessoa. Eu precisava aprender estratégias que respeitassem o funcionamento da minha mente.
Muitas pessoas com TDAH até aprendem técnicas de oratória, roteiros e estruturas de apresentação. Ainda assim, continuam travando.
Porque a comunicação não acontece somente na boca. Ela passa pela mente, pelo sistema nervoso, pela autoestima e pela forma como a pessoa se percebe diante do outro.
Quando existe medo de julgamento, autocobrança, ansiedade ou experiências anteriores de vergonha, o desafio fica ainda maior. A pessoa não está apenas tentando falar: ela está tentando lidar com uma mente acelerada enquanto tenta parecer segura.
Por isso, a solução não é decorar discursos ou se forçar a falar como alguém que você não é.
É criar recursos para que a sua mensagem tenha estrutura sem perder autenticidade.
Algumas estratégias que fazem diferença para pessoas com TDAH na comunicação são:
Ter uma mensagem central antes de começar: “Se as pessoas lembrarem de apenas uma coisa, o que eu quero que seja?”
Usar estruturas simples de fala, em vez de tentar improvisar tudo;
Anotar palavras-chave, não textos inteiros;
Dividir uma apresentação em blocos curtos;
Treinar pausas para dar tempo de organizar o pensamento;
Aceitar que não é preciso dizer tudo para ser compreendida;
Preparar respostas para perguntas frequentes;
Reduzir a autocrítica e aprender a retomar a fala quando perder o fio;
Trabalhar a ansiedade e a necessidade de perfeição.
Comunicação clara não é falar pouco. É conseguir conduzir a outra pessoa até o ponto que você quer transmitir.
Ter TDAH pode trazer desafios reais para a comunicação. Mas também pode trazer originalidade, sensibilidade, criatividade, energia e uma capacidade única de fazer conexões.
O caminho não é apagar essas características para caber em um padrão de comunicação engessado.
É aprender a organizar a sua voz para que as pessoas consigam acessar a potência que já existe em você.
Eu não ensino pessoas a parecerem confiantes. Eu ensino pessoas a não precisarem fingir.
Porque a sua verdade é a sua maior autoridade.
Se você sente que tem muito a dizer, mas trava, se perde ou se diminui quando precisa se expor, talvez o problema não seja falta de capacidade. Talvez você só precise de um caminho que respeite a forma como a sua mente funciona.
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